Coluna - Ka entre Nós, por Lucrécia Santos - 31/10/2011

TRABALHAR COM AMOR  

Passavam alguns minutos de meio dia quando o táxi estacionou em frente ao escritório. 

Era um dia muito quente de verão e o trânsito, como sempre, estava “nervoso”. 

Abri a porta e sentei-me no banco traseiro. 

“Bom dia!” Disse o motorista. 

Respondi seu cumprimento e indiquei o bairro para onde devíamos seguir. O homem arrancou o carro e logo começamos uma boa conversa. 

Aquele era um taxista diferente. Tinha uma maneira agradável de comunicar e nos lábios sempre um sorriso. Comentei como deve ser difícil a sua profissão, pois dirigir o dia inteiro no trânsito de uma grande capital não é brincadeira. Ele respondeu sorrindo: “não digo que seja fácil, mas é só uma questão de jeito”. 

Aí o assunto ficou mais interessante, pois aquele motorista aparentemente tão comum era uma verdadeira lição ambulante de sabedoria. 

Começou a contar qual era o seu segredo, dizendo: 

1º- eu nunca trago meus problemas pessoais para o trabalho. Antes de sair de casa, dou uma passadinha atrás da porta e deposito lá todas as minhas preocupações. Só as retomo no final do expediente e, para ser sincero, parece que os problemas diminuem de tamanhos. Ficam mais fáceis de resolver. 

2º- nunca desejo um bom dia a ninguém, se não for com convicção. 

3º- não me deixo envolver pelo mau-humor nem pela irritação de alguns passageiros. 

4º- não me permito entrar na onda de agressividade alimentada no dia-a-dia do trânsito. 

5º- todos os passageiros são pessoas especiais para mim. Merecem minha atenção e o meu respeito e, se possível, minha solidariedade. 

Quando disse isso, contou o caso de uma de suas passageiras. Era início da manhã quando ela entrou no táxi, num bairro distante. Tratava-se de uma senhora de meia idade e estava de mão dada com uma criança. 

Pediu-me para levá-la a uma agência bancária no centro da cidade. Eu lhe perguntei se ela precisava ir mesmo àquela agência ou se poderia ser numa mais próxima, que lhe economizaria tempo e dinheiro. Ela respondeu que precisava apenas pagar umas contas. Então sugeri que fôssemos a uma agência que ficava há algumas quadras de onde estávamos.  Ela aceitou.

O trajeto não era longo, mas foi o suficiente para uma conversa sobre as coisas boas da vida.

Parei em frente ao banco e ela me pediu para esperá-la, pois precisava retornar logo para casa. Durante a viagem de volta, continuei tentando animar aquela mulher que deixava transparecer profunda amargura no olhar.

Quando chegamos ao fim da viagem, aquela senhora de semblante triste falou com voz embargada: “Foi Deus que enviou você, moço.”

“Meu marido morreu há dois meses e eu estou passando por uma situação muito difícil. Nunca trabalhei fora, nunca tratei dos negócios, e agora me vejo obrigada a cuidar de tudo sozinha.” “Além disso, sinto a falta do companheiro querido, agora ausente. Ando tão deprimida... E o pior é que estou passando essa tristeza para a minha filha que, como o senhor pode ver, está tão desolada quanto eu.”

E, por fim, concluiu o taxista: ela chorou por cerca de dez minutos, e eu chorei também, comovido com aquele coração de mãe que sentiu em mim um ombro confiável para um desabafo salutar. Pagou a corrida e esboçou um leve sorriso nos lábios, dando mostras de bom ânimo e coragem para seguir em frente.    
Deus ajuda o homem através do homem.

Qualquer que seja a atividade que você exerça na sociedade, ela pode lhe oferecer oportunidade de tornar a vida mais solidária e mais feliz. Para isso, basta olhar ao redor com  atenção e com o desejo sincero de estender a mão a quem precisa, mesmo que isso custe  alguns minutos do seu precioso tempo.