A Psicologia do Futuro

Fiquei pensando como iniciaria este artigo, tendo em vista que é meu primeiro artigo no Jornal Varginha Hoje, e decidi apresentar aos leitores não somente os conhecimentos técnicos que a psicologia nos proporciona, mas também o seu lado mais humanista, cuja vivência é tão importante quanto qualquer indício de cientificidade e às vezes até mais! Gostaria de poder contribuir não somente com técnicas, teorias, mas poder fazer dos artigos, momentos de reflexão, transformação e trocas, pois ao final, deixo meu contato eletrônico para novas ideias e sugestões, que poderão ser esclarecidos através de futuros artigos. 

Mas afinal, o que é a psicologia do futuro? Não aprendemos isso na faculdade, mas com o passar dos anos, aprendemos que a psicologia é a arte de sentir e compreender não somente a nós mesmos, mas os nossos semelhantes, as situações da vida, e algumas vezes, somente o tempo, a maturidade, as experiências de vida podem nos trazer esse olhar mais humanista e transcendental. Por isso, de início, compartilho um pouco da teoria da psicologia humanista e transpessoal, porque acredito que nos falta olhar para além de nós mesmos, se queremos viver numa sociedade mais justa e solidária. Ao final do texto, teço meus comentários. 

Ao final da década de 60, surgiu a Psicologia humanista, considerada a terceira força na psicologia e tendo como fundador Abraham Maslow.  As primeiras são mais conhecidas: a psicologia comportamental e a psicanálise. A psicologia humanista tomou como principal foco, aspectos associados à saúde em vez de enfatizar a patologia. Por exemplo, os psicólogos iniciaram estudos sobre autorrealização e acerca de indivíduos que pareciam ter superado aspectos patológicos. Chegou-se à conclusão que as pessoas adoecem porque bloqueiam aspectos saudáveis. Os modelos humanistas reconheceram o impulso de autorrealização, tendo explorado maneiras pelas quais isso pudesse ser promovido em indivíduos, em grupos e em organizações. Daí surgiu o chamado movimento do potencial humano, com o seu interesse em realizar os potenciais recém-descobertos de desenvolvimento e de bem-estar. Muitas ideias foram incorporadas à parcela em evolução de uma significativa contracultura, alcançando uma ponderável aceitação popular. Podemos exemplificar esta visão da seguinte forma: a vida de uma pessoa, que através de uma crise pessoal, de trabalho, de algum outro problema, consegue encontrar novas saídas para poder lidar com a situação e não adoecer. Nem todas as pessoas conseguem superar seus problemas tão rapidamente, e por isso a importância da família, dos amigos, do psicólogo, de uma rede de apoio. 

Depois desta terceira força, teríamos uma quarta, ainda "mais forte", trans pessoal, centrada no cosmos e não em necessidades e nos interesses humanos, identificando-se não somente com o ego, mas com fatos, situações além da condição humana. Vitor Frankl, Stanislav Grof, James Fadiman e Antony Sutich uniram-se a Maslow, e oficializaram, em 1968, a Psicologia transpessoal, enfocando o estudo da consciência e o reconhecimento dos significados das dimensões espirituais da psique. Esse evento foi anunciado por Antony Sutich, em seu artigo Transpersonal Psychology. 

A Psicologia transpessoal surgiu a partir das ideias da psicologia humanista de Maslow, que acreditava ser importante vivenciar o aspecto transcendente do ser humano, ou seja, pensar de forma holística, transcendendo dualidades como certo, errado, bem ou mal, passado, presente e futuro. Gostaria de deixar bem claro que estas concepções vão muito além de nossa compreensão, e isto pretendo esclarecer num próximo artigo. Eckhart Tolle é um autor que nos esclarece muito bem estas questões em seu livro “O Despertar de uma nova consciência”, que recomendo aos nossos leitores. 

Maslow declarava que sem o transcendente ficaríamos doentes, violentos e niilistas, vazios de esperança e apáticos. Vivenciar o transcendente é reconhecer a divindade em nós e buscar o que há de melhor em nós e nos outros. Mas o que seria esta divindade? Neste momento me proponho a pensar sobre isso e acredito que cada um pode interpretar de acordo com sua crença, mas com certeza, é inegável que há uma força maior que nos rege, que rege nosso universo, e que quando acreditamos em algo superior, começamos a entrar numa nova sintonia. Quando ficamos doentes ou temos algum tipo de perda, seja pessoal, material ou algo de “ruim” nos acomete, pode ser um momento de despertar, de reflexão e de uma nova postura em relação à vida. 

As leis que regem o universo são baseadas na harmonia, em sentimentos nobres, em compaixão por todos os seres, na sabedoria, no amor e na ética, mas os seres humanos buscam outros caminhos que os levam ao sofrimento e presenciamos isso nos noticiários praticamente todos os dias. A psicologia do futuro se baseia em fazer um resgate de vários aspectos em nós mesmos, pois a mudança, primeiramente, se efetiva em nós e toda transformação se resume em duas palavras: AMOR E RESPEITO - por nós, por todos os seres, por nosso planeta. Quando sentimos e vivenciamos isso, tudo começa a se transformar em nossas vidas e em nosso entorno. O terapeuta transpessoal está voltado para o acompanhamento do cliente (não dizemos paciente) em sua aprendizagem do tratamento de problemas e de situações à medida que surgem, em vez de resolver uma situação particular da vida deste. É o facilitador do processo de autoconsciência e autocura do indivíduo. Tudo que vivenciamos tem uma razão divina de ser, há um aprendizado e precisamos continuar a viver da melhor maneira possível.


Cecília da Silva Brito – psicóloga graduada pela PUC, pós-graduada em Ed. Infantil e em neuropsicologia. Atendimento clínico, orientação educacional para grupos de pais e palestras.