Fila de espera de Centro de Oncologia de Varginha chega a 90 dias

Todos os dias pacientes vindos de várias cidades do Sul de Minas chegam cedo ao Centro de Oncologia do Hospital Bom Pastor em Varginha. No lugar, é possível ouvir histórias comoventes de quem não mede sacrifícios para lutar pela vida. Apesar do bom atendimento no centro, o hospital sofre dificuldades para atender a alta demanda de casos e a fila de espera para início do tratamento dos pacientes pode durar até 90 dias.

Dona Sueli da Silva mora em São Lourenço e acorda no meio da madrugada para ir para Varginha. "Eu levanto umas 2h, para esperar a condução", conta. Em uma viagem que duraria cerca de 1h30, dona Sueli levanta cedo assim para aproveitar o transporte oferecido pela prefeitura. No Centro de Oncologia, ela ainda espera até às 13h para ser atendida. "Cansa muito 'né', a gente não dorme direito, passa mal na fila, é bem cansativo", desabafa.

O apoio nesses momentos ajuda a aumentar a esperança de se livrar da doença e algumas entidades fazem esse trabalho. Dona Margareti Alvarenga é dona de uma das várias pensões que surgiram ao redor do Hospital Bom Pastor e funciona como uma casa de apoio para pacientes e acompanhantes. No local, passam cerca de 40 pessoas por dia. A pensão foi herdada da mãe de Margareti. “Antigamente era a nossa casa, da minha família, aí começamos a atender gente do pronto-socorro, gente que acompanhava quem estava internado, e hoje é a oncologia", explica.

São 14 quartos na pensão, onde trabalham pai, filha e uma cozinheira. Há 16 dias, o local virou a casa de dona Francisca Rezende Pereira, que acompanha o marido no tratamento. "Aqui eu almoço, janto. É tudo bem aconchegante", conta. O pai de Margareti explica como funciona o pagamento. "Ele é feito pela prefeitura que manda os pacientes. Tem prefeitura que paga o acompanhante, outras não, depende se tem dinheiro, mas a gente atende do mesmo jeito".

Para tornar essa espera menos angustiante, os pacientes também contam com o apoio da ONG Vida Viva. A organização oferece leitura, medicamentos e lanches das 7h às 16h30. Nos últimos dois anos, o número de pessoas que passam pelo centro aumentou bastante. "Praticamente dobrou", conta a presidente da ONG, Evalúcia Nishiyama. "Todo dia tem um ou dois casos novos no hospital".

Esse aumento também vem sendo registrado pelo próprio Centro de Oncologia. No ano passado, cerca de 100 pessoas eram atendidas por dia. Hoje, são 150 de 174 cidades. "A detecção precoce do câncer aumentou muito, as formas de diagnosticar a doença melhoraram muito, mas o tratamento continua sendo doloroso", explica a coordenadora do Centro de Oncologia, Jucemara Venturi.

No centro, há 1,5 mil pacientes cadastrados que estão em tratamento ou fazem o acompanhamento da doença. Em 2000, eram 220 e a estrutura continua praticamente a mesma. "Nosso maior problema hoje são as dependências, que são insuficientes", explica o presidente da Fundação Hospitalar, Luiz Fernando Alfredo.

O resultado dessa falta de investimento está na fila de espera. Para iniciar o tratamento, em alguns casos, a espera é de 90 dias. O equipamento para tratamento de radioterapia do centro tem capacidade para atender 60 pessoas por dia, mas é usado para tratar 108 diariamente. Com isso, o equipamento está sempre quebrando. O ideal é que fossem dois no centro para atender toda a demanda.

"Infelizmente o equipamento trabalha quase 24h por dia, começa às 6h e segue até 2h da manhã do dia seguinte", conta Jucemara. Na quimioterapia também já falta espaço: são sete leitos para os mais debilitados e seis cadeiras. As sessões duram de duas a seis horas.

 Mas apesar da falta de espaço, os pacientes dizem que são muito bem atendidos. "Sempre soube que o tratamento era bom", conta o paciente Francisco Ceballos, que descobriu um câncer no pulmão em janeiro e depois de seis meses de tratamento, comemora a última sessão. "Se Deus quiser, não vou precisar voltar, mas quero continuar ajudando. São todos muito amáveis aqui", finaliza.

Sobre a falta de estrutura, o Ministério de Saúde informou que pode ajudar com investimentos na estrutura, mas para isso, é preciso que o município apresente um projeto ao ministério.  De acordo com o secretário de saúde de Varginha, José Antônio Valério, o projeto com as necessidades da rede de oncologia da cidade está em andamento e deve ser entregue ao ministério no dia 5 de julho. Valério ressalta ainda que os atendimentos aumentaram 1000% desde a inauguração do Hospital Bom Pastor e que é preciso, pelo menos, a aquisição de mais uma máquina de radioterapia.



G1