A mudança que dói

Por esses dias estava refletindo sobre a necessidade das mudanças e como, às vezes, estas podem ser incômodas e dolorosas. Normalmente, fazemos opções na vida pautadas naquilo que consideramos bom e justo, ou ao menos coerente e adequado frente a nossa educação e entendimento. Com o passar dos anos, no entanto, nossa compreensão vai se modificando, principalmente se ampliando. Ficamos suscetíveis a mudanças, muitas vezes imperiosas, condizentes à nossa nova realidade. Nessa situação podemos experimentar o sofrimento, principalmente se nossa prática ou conduta já está arraigada e nos aparenta ser inofensiva.

O chamado de Deus ao serviço pode desencadear tal necessidade de mudança e restauração. Ele costuma impor condições para assegurar o sucesso de certas missões. Algumas obras podem ser realizadas por todos, no entanto, certas obras só podem ser realizadas por alguns. “A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais será pedido” (Lc 12, 48b). Privar o Senhor da nossa mudança e do nosso serviço é condenar-se a si mesmo, tendo em vista que Ele nos capacita justamente para utilizarmos nossos dons em benefício dos irmãos e da comunidade.

Enfrentar nosso egoísmo é o primeiro passo para uma mudança efetiva. Quem pensa somente em si não consegue enxergar as carências do próximo. Faz-se necessário exercitar o “colocar-se no lugar do outro” para aquilatar seus pensamentos, sentimentos e reais precisões. Nossa indigência moral nem sempre nos possibilita entrar em contato conosco e operar transformações em nossa vida. É por isso que carecemos da graça de Deus. Através dela, constatamos a nossa pequenez e podemos fazer propósitos para uma vida com sentido, foco e direção, objetivando alcançar o alvo que o Senhor nos propôs. Nem sempre é tão claro esse alvo, de modo que urge exercitar nossa humildade para que nos seja revelado tal propósito pelo próprio Deus ou a seu mando.

A mudança acontece de dentro para fora. Nosso coração tem maçaneta apenas do lado interno. Somente nós podemos abrir a porta; e ainda, voluntariamente. A Palavra de Deus é guia seguro no tocante ao que deve ser modificado em nossa conduta ou nossos hábitos. A pregação também ajuda a aguçar nosso foco, entretanto, precisamos estar abertos para sentir o apelo do Senhor em nossas vidas. De nada adianta manter o coração fechado, os olhos cerrados, os ouvidos tampados, as mãos inoperantes e os pés paralisados, vivenciando a omissão.

Podemos começar realizando um trabalho voluntário. Dezenas de pessoas necessitam de uma visita, uma palavra amiga, um abraço, alguém que as ouça... Exercitar a doação de si próprio é partilhar com os demais aquilo que somos, e nos dá a chance de sermos pessoas melhores, de aprendermos e crescermos, expandindo nosso conhecer e sentir.

O mundo necessita de pessoas melhores; altruístas e bondosas. Precisamos trabalhar nossas deficiências a fim de que estejamos em condições de abrir mão do nosso comodismo. Coloquemo-nos à disposição do Senhor com humildade, paciência, retidão e boas obras. Mudanças hão de vir e serão benvindas ainda que, inicialmente, possam causar sofrimento e dor, pois é através delas que Deus nos recruta e capacita para o serviço ao próximo e à comunidade. Ganhamos todos com isto!


Maria Regina Canhos
(Escritora)

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