Audição: sinais podem ajudar pais a descobrirem se filhos têm falhas

Pais de menina de Varginha só descobriram deficiência dela aos 2 anos.

Após completar 2 anos e 2 meses de idade, a vida da menina Bárbara Fonseca Lopes, que mora em Varginha (MG), mudou. A esperteza da menina que corria e brincava para todos os lados o tempo todo fez com que ela escondesse um problema grave, a perda de audição. A deficiência auditiva de Bárbara só foi descoberta após a família dela estranhar a demora para que a menina começasse a pronunciar as primeiras palavras.

"A gente sabia que tinha alguma coisa errada, mas a gente mesmo não aceitava. Foi quando nós procuramos uma fonoaudióloga e um exame deu o diagnóstico. O teste do ouvidinho não constatou nada. O ouvido dela é perfeito, mas a audição não. A fonoaudióloga fez testes, jogou um tambor no chão e ela não viu. Ela conseguiu tapear todo mundo", conta o pai de Bárbara, o fotógrafo Tiago Lopes.

Os exames apontaram que Bárbara tem uma deficiência na cóclea, que é a parte auditiva do ouvido interno. Para corrigir o problema, a menina terá que fazer uma cirurgia de implante coclear, que consiste na colocação de um equipamento com eletrodos que vão fazer ela ter a chance de ouvir os sons, o chamado ouvido biônico. Após isso, ela terá que passar por um tratamento para conseguir entender e decodificar os sons.

"Quem escuta é o cérebro e não o ouvido. O ouvido é o caminho que o som percorre. É um processo de aprendizagem. Com dois anos, a criança precisa estar falando as primeiras palavrinhas. Se a criança é privada desses estímulos sonoros, ela perde essa informação sonora. Não é só colocar o dispositivo. Isso requer terapias, estimulação. Essa criança terá que passar por acompanhamento constante", explica a responsável técnica pelo Serviço de Saúde Auditiva do Hospital Alzira Velano, em Alfenas (MG), Sanyelle Pinheiro.

No caso de Bárbara, todo o tratamento será feito pela rede pública, através do Sistema Único de Saúde (SUS). A menina irá passar por avaliações em Juiz de Fora (MG), onde será feito o implante do ouvido biônico. No entanto, o pai da menina promove pelas redes sociais uma rifa para arrecadar dinheiro para auxiliar no tratamento, já que a menina terá que fazer viagens para a cirurgia e tratamento com fonoaudiólogas. A rifa, que está sendo vendida no valor de R$ 50, irá sortear uma bicicleta profissional avaliada em R$ 5 mil.

"A idéia de fazer uma rifa para arrecadar dinheiro foi no sentido da gente ter alguma reserva para auxiliar no tratamento dela. Descobrimos o problema dela há pouco mais de 30 dias e para quem trabalha, vive de salário, fica difícil retirar qualquer dinheiro. Já consegui a ajuda de muitos amigos", conta o pai da menina.

Segundo a fonoaudióloga Maria Luiza Corsini Liz, há sinais que um bebê ou uma criança maior pode dar aos pais mostrando que não está com uma perfeita audição.

"Reações como acordar e se assustar ao ouvir um som, girar a cabeça procurando a fonte sonora, sorrir ao ouvir a voz da mãe e familiares são sinais que a criança está ouvindo. O recém-nascido durante os primeiros meses de vida começa a produzir sons, balbuciar e com o seu desenvolvimento inicia-se a fala (12 meses), pois são capazes de ouvir seus familiares, reconhecer a voz da mãe e imitá-los. Reações contrárias  às descritas acima como ficar imóvel, não mostrando qualquer reação frente a barulhos e sons intensos, não emitir sons nos primeiros seis meses de vida, o atraso na fala, podem ser fortes indícios para a suspeita de uma perda auditiva que pode variar desde o grau leve até o severo profundo", explica a fonoaudióloga.

Situação mais comum do que parece

Acordar um certo dia e descobrir que sua criança não ouve perfeitamente é mais comum que muita gente possa imaginar. O mesmo problema que assustou a família da pequena Bárbara também mudou a vida da corretora de imóveis Maria Custódia Ferreira, também em Varginha. Quando a filha dela, Poliana, tinha apenas 1 ano e meio, a deficiência auditiva foi descoberta.

"Ela sempre foi muito esperta e nos tapeou. A gente chamava ela e ela não olhava, aos poucos fomos percebendo. Foi aí que levamos em uma fonoaudióloga e depois ela teve que colocar o aparelho auditivo nos dois ouvidos", conta Custódia.

 Hoje, aos 27 anos, apesar de usar o aparelho auditivo, Poliana consegue entender o que as outras pessoas dizem através da leitura labial e como característica comum de quem tem deficiência auditiva, encontra dificuldades para se expressar.

Poliana conseguiu superar todas as previsões pessimistas e se tornou uma psicopedagoga com várias especializações. Mas, para chegar até este ponto não foi fácil. Ela conta que sempre teve que lidar com a desconfiança e a falta de apoio.

"Sempre tive dificuldades na escola. Faltava paciência das pessoas. Tive mais dificuldades no Ensino Médio, principalmente com a falta de preparo dos professores, inclusive na faculdade. Tinha uma professora que eu não entendia e ela também não a mim. Mesmo assim nunca perdi um ano e sempre fiquei na média. Sempre fui bem na escola", conta Poliana.

O segredo da psicopedagoga ter superado as dificuldades está dentro de casa. O apoio da mãe, que sempre esteve ao lado da filha, foi fundamental. "Eu sempre a ajudei em casa, com os deveres. A dificuldade fez com que ela sempre procurasse fazer melhor, ela mesmo exige essa perfeição dela", conta Custódia.

Superadas as dificuldades com a deficiência auditiva e o esforço para se formar na faculdade, Poliana agora encontra um novo problema: a falta de emprego. A psicopedagoga, que já trabalhou em um colégio particular e em projetos da prefeitura, agora busca uma nova oportunidade para se firmar no mercado de trabalho.

"É muita dificuldade. As pessoas demoram a acreditar no potencial de uma deficiente auditiva. Inclusão é muito difícil. Muito se fala em inclusão, mas na nossa vida, inclusão nunca existiu. Ela venceu porque eu estava sempre com ela. Para um deficiente auditivo, família e escola precisam caminhar juntos", diz Custódia.

Auxílio de serviços no Sul de Minas

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), para cada grupo de mil brasileiros, de 100 a 150 pessoas têm algum tipo de problema auditivo. Segundo especialistas ouvidos pelo G1,  quando se fala em saúde auditiva, cada dia de atraso é um dia perdido nessa luta.

“Até os 3 anos, a criança está na fase da maturação auditiva e por isso a reabilitação desse paciente é mais fácil. Infelizmente, a divulgação dos serviços públicos disponíveis para essas pessoas ainda é precário. Poucos sabem que podem ter acesso a todos procedimentos clínicos por meio do Sistema Único de Saúde e acabamos recebendo muitos pacientes no momento em que o problema está mais avançado", diz a otorrinolaringologista Sueli de Lima Ramos, diretora clínica do Instituto Sulmineiro de Otorrinolaringologia (ISMO) em Pouso Alegre, que é é referência no tratamento auditivo pelo SUS para 83 cidades da região.

O caminho para se chegar a um centro de referência como o instituto em Pouso Alegre é simples. Em todos os casos em que o resultado de um exame auditivo apresenta algum problema, o paciente tem direito a procurar a Secretaria de Saúde do seu município e solicitar o encaminhamento, que é feito conforme a cota de atendimento determinada pelas gerências regionais de saúde. No centro de referência, o paciente passa por exames mais precisos, que poderão identificar qual o problema existente.

“Uma audiometria ou um teste da orelhinha (audiometria realizada em bebês) são importantes para fazer a triagem, detectar algum indício, mas há outros exames que vão especificar o que acontece durante o processo da audição daquelas pessoas”, explica a médica.

Pelo SUS, o paciente ainda tem acesso aos tratamentos indicados para cada caso, como o aparelho auditivo e o chamado ouvido biônico. O aparelho auditivo é o mais popular dos procedimentos médicos para reabilitação dos pacientes com algum grau de surdez e funciona como um amplificador do som. Já o ouvido biônico ou implante coclear é menos conhecido, mas uma das mais modernas criações para quem o aparelho já não traz benefício. “Para pacientes do Sul de Minas, o implante com recursos do SUS ainda é feito apenas em Juiz de Fora (MG). Ele é indicado para pessoas com surdez severa profunda bilateral. Nós encaminhamos para Juiz de Fora e, uma vez feito o implante, o paciente retorna para continuar o acompanhamento aqui”, relata a diretora do ISMO.

O ouvido biônico é formado por um aparelho externo ao ouvido que, por meio de uma antena, se comunica, por radiofrequência, com outro aparelho instalado no ouvido interno do paciente. O equipamento transforma o estímulo interno em externo. O primeiro implante do tipo realizado em Minas foi feito há cinco anos em Pouso Alegre, pela equipe liderada por Sueli Ramos no ISMO. Desde então, o instituto busca credenciamento junto ao SUS para que o acesso da região ao serviço seja facilitado.

Outro centro especializado em saúde auditiva na região fica em Alfenas (MG), no Hospital Alzira Velano. O Serviço de Atenção à Saúde Auditiva oferece desde acompanhamento, triagem, diagnóstico, concessão de dispositivos eletrônicos e terapias, tudo pelo SUS. O serviço atende cerca de 125 pacientes por mês de 72 municípios. Atualmente no serviço estão 20 mil pacientes cadastrados, que conforme ressalta a responsável-técnica Sanyelle Pinheiro, precisam ser acompanhados constantemente.

"A partir do momento em que o paciente entra no serviço, ele pertence a ele enquanto for vivo. Ele terá todo o suporte e acompanhamento, que só não vai receber, se não voltar", explica Sanyelle.

Ainda conforme ela, que também é responsável pelo dianóstico audiológico infantil, ainda há falhas na forma com que os pacientes são captados para o serviço. Muitos só procuram ajuda ou só descobrem que têm o problema após um certo tempo.

"Essa é uma falha que os serviços ainda têm, um serviço de alta complexidade tem que atender mais crianças, mas elas precisam chegar através da triagem auditiva. Em relação a 2009, quando foi credenciada a triagem auditiva no Hospital Alzira Velano, já houve uma grande evolução. Antigamente eram 50 bebês por mês. Hoje já são de 180 e 200 crianças por mês sendo triadas. É uma corrida contra o tempo. Se você fecha um diagnóstico de uma criança de 2 anos, ela tem 2 anos e tantos dias de atraso", explica Sanyelle Pinheiro.

O Serviço de Saúde Auditiva do Hospital Alzira Velano faz a triagem dos pacientes e todo o acompanhamento necessário após a colocação do aparelho auditivo ou do implante coclear. Para os que precisam de aparelho auditivo, o procedimento é feito no próprio hospital. Já os pacientes que precisam do ouvido biônico são encaminhados para a Santa Casa de São Paulo. O hospital ainda tenta o credenciamento junto ao Ministério da Saúde para que possa realizar esse tipo de procedimento em Alfenas.

G1