Nunca houve tanto importado dentro da casa do brasileiro

Importação é boa para o comércio, 
mas deixa de criar empregos na indústria nacional

Você está no Brasil, compra um produto numa loja aqui mesmo, mas, ao chegar em casa e observar com mais cuidado, percebe que o produto foi fabricado em outro país – provavelmente na China. A participação dos produtos estrangeiros na economia brasileira bateu recorde. Segundo dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a participação de produtos estrangeiros no consumo do brasileiro atingiu 22,5% no primeiro trimestre deste ano, a maior fatia desde 2007, quando o levantamento começou a ser feito.

 A presença dos chineses é a maior. O país foi o maior exportador do mundo no ano passado, com aumento de 8% no volume de produtos, segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC). Muito do que se consome hoje no Brasil vem desse país e, muitas vezes, o consumidor nem nota. O famoso tênis Nike, por exemplo, é produzido no país asiático.

A professora Maria das Graças do Carmo Gomes já aprendeu, pela experiência, a olhar a etiqueta e ver a origem do que está comprando. “Era uma bolsa de couro sintético. Depois eu vi, na etiqueta, que era da China”, conta.

Para a CNI, o percentual é mais um indicador que confirma a perda de competitividade da indústria brasileira, que está com a produção reduzindo e impactando até o crescimento da economia. O analista de negócios internacionais da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Alexandre Brito, afirma que persiste uma concorrência desequilibrada entre produtos nacionais e estrangeiros. “A indústria brasileira convive com custos elevados, falta de infraestrutura e burocracia”, diz. Segundo ele, os produtos estrangeiros, com custos menores de produção, chegam mais baratos ao Brasil.

O comprador de produtos importados da Loja Elétrica, em Belo Horizonte, Paulo César Bettoni, confirma que os preços dos importados são de 30% a 40% mais em conta que os nacionais. Outra vantagem é a tecnologia. “No passado, havia desconfiança da qualidade do produto chinês, preconceito mesmo, o que hoje não existe mais”, diz.

O professor do MBA de gestão de comércio exterior e negócios internacionais da FGV, Rômulo Francisco Vera Del Carpio, afirma que a importação pode ser boa ou ruim para o país. “A resposta não é única. Vai depender do setor. É importante lembrar que há máquinas, equipamentos e componentes que não são produzidos no Brasil, mas são necessários para a produção de um determinado segmento. Agora, existe o lado ruim, que é a concorrência com o produto nacional”, observa.

Ele diz que há indústrias que viraram importadoras, deixando de fabricar no Brasil e apenas colocando sua marca num produto estrangeiro. “O problema é que há impactos no mercado de trabalho. Vagas deixam de ser criadas no Brasil”, analisa.