Choro do derrotado

Será proveitoso refletir, desde agora, sobre o choro do derrotado, conforme venha a ser o veredito das urnas.

Não é preciso ser profeta para fazer o diagnóstico das lágrimas. Basta um pouco de reflexão.

Se Aécio vencer, a vitória será impugnada como antidemocrática pois quem, na verdade, venceu foi o Jornal Nacional, com a parcialidade daquilo que é supostamente chamado de noticiário. Ao lado do superpoderoso JN, outros instrumentos de deformação da opinião pública teriam entrado em cena para produzir o resultado eleitoral.

Se Dilma for eleita, a vitória também será estigmatizada com argumentos na aparência corretos. Não foi Dilma quem venceu, mas sim o Bolsa Família, a exploração política das agruras do povo sofrido. Dilma ganhou força no Nordeste faminto e perdeu no Sul consciente e politizado.

Essas teses, de um lado e de outro, podem ser aceitas?

A resposta taxativa é: Não.

Sem dúvida a imprensa, sobretudo a imprensa televisiva, exerce um poder grandioso. Mas é melhor que haja uma imprensa com essas falhas do que impere a voz uníssona de um ditador. Sempre há a possibilidade de existência de uma imprensa alternativa, que conteste a imprensa dominante. E, além disso, também funciona, sobretudo no Brasil, a conversa ao pé do ouvido que sabota os éditos do rei pronunciados pela simpática voz dos leitores (ou atores) de textos televisivos. Corre Brasil afora, pela boca miúda e anônima, esta frase fulminante: eu não acredito na televisão, exceto na previsão do tempo. Desta forma o argumento de manipulação da consciência do povo pelos meios de comunicação deve ser rejeitado.

Também não merecem acolhimento dúvidas que possam questionar a pureza de uma eventual reeleição de Dilma. É legítimo que um presidente, governador ou prefeito realize obras ou procure amenizar sofrimentos do povo, ainda que o interesse motivador de tudo seja a reeleição. Não se exija santidade ou coro de vozes angelicais no mundo da política. Se não se chega ao assassinato do opositor, está tudo bem.

O Brasil está avançando no exercício da Democracia, embora tenhamos pela frente um longo caminho a trilhar. Socorra-nos a sabedoria popular: Roma não se fez num dia.

Não será num piscar de olhos que serão superados vícios centenários. Mas com determinação será possível alcançar estágios civilizatórios sempre melhores. As ditaduras, no Brasil e no mundo, produziram frutos podres. Basta conhecer um pouco de História para chegar a esta conclusão. A prática democrática propicia a correção dos rumos. A Democracia depura a Democracia. É nesta rota que devemos prosseguir.


João Baptista Herkenhoff, Juiz de Direito aposentado, Livre-Docente da Universidade Federal do Espírito Santo e escritor. Autor, dentre outros livros, de: Encontro do Direito com a Poesia (GZ Editora, Rio de Janeiro).

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