Em pauta é... Como ser feliz?

Boa Pergunta!

É possível ser feliz 24hs por dia?

Ser feliz é o mesmo que ser alegre?

A felicidade exclui experiências negativas?

Alguns psicólogos esforçam-se por tentar responder a essas e a muitas outras perguntas.. Pouco se sabe sobre a felicidade. Ao contrário, durante muito tempo era muito mais fácil encontrarmos em abundância páginas e páginas de estudos sobre a infelicidade, a dor, a tristeza e todo tipo de experiência que consideramos ser responsável pela infelicidade.

Embora esse cenário esteja mudando, ainda existe em nossa cultura uma busca desenfreada para entender a infelicidade: se o tópico de interesse é trabalho, encontramos substanciosos volumes sobre o desemprego, os problemas advindos da aposentadoria, a impossibilidade de se conseguir o primeiro emprego, etc. Se o assunto é saúde, nos deparamos com extensas obras sobre a doença, o sofrimento físico e o mental, e por aí vai. Se o tema é o amor – Ah! O amor! – nos debruçamos sobre a infidelidade, o ciúme, a dependência afetiva; e no sexo, a impotência, a frigidez, a anorgasmia…
   
A cultura da infelicidade torna-se bastante rentável na medida em que a cada ano são lançadas dúzias de livros que prometem fórmulas mágicas para a felicidade no trabalho, no amor, no sexo, nas finanças, etc. Da mesma forma, reportagens em revistas, jornais, programas de rádio e televisão prometem o caminho da felicidade com receitinhas fáceis e “caseiras”; ao mesmo tempo em que a literatura, a teledramaturgia e o cinema colorem o nosso imaginário com finais “felizes para sempre” conquistados com a vitória do bem sobre o mal.

Em paralelo a tudo isso, a Ciência oficial, aquela dos laboratórios e dos tubos de ensaio, traça para cada nova temporada o lançamento de um medicamento milagroso que poderá acabar com o nosso sofrimento, a nossa depressão, a nosso comodismo, o nosso mau humor, ou seja, com a promessa nada sutil de nos tornar mais felizes!

Resolver os problemas da vida num passe de mágica é provavelmente um desejo de todos nós. Qualquer pessoa já desejou escapar da dor e da tristeza para evitar o sofrimento. Mas, desejou fazê-lo sem qualquer sombra de sofrimento: num golpe certeiro de um gole d’água seguido de uma “pílula dourada” que pudesse trazer alívio imediato.

Infelizmente, ou felizmente, a felicidade não pode ser comprada na farmácia ou na livraria, ela não está à venda na concessionária de carros ou naquele MBA que se anuncia. Sorte ou azar nosso, não há um consórcio para a felicidade cuja prestação seja o “passo a passo” daquele programa vespertino ou a conquista daquela pessoa em especial.

Se o que a Psicologia investigou até hoje da experiência da felicidade é uma verdade, então, a felicidade é uma condição pessoal e intransferível, não pode ser passada adiante numa fórmula eficaz e infalível que possa ser generalizada para todo mundo. Se há uma verdade sobre a felicidade, é que ela é fruto da busca individual de cada um pela realização do próprio desejo, e ponto!

E como é possível realizar o próprio desejo e ponto? Antes de tudo é preciso descobrir qual é o próprio desejo. Entendamos desejo como aqueles sonhos e condições que priorizam a nossa realização pessoal – e não a vontade de nossos pais, as predeterminações de gênero e sociais, ou as expectativas de nossos pares ou de nosso grupo étnico e cultural. Identificar, reconhecer e aceitar o próprio desejo não é uma tarefa fácil, exige vontade e disposição para romper com crenças, atitudes e valores que reproduzimos automaticamente sem questionarmos se realmente é aquilo que pensamos ou queremos.

Vários especialistas estudam a Psicologia da Felicidade há mais de 10 anos e, de forma surpreendente, os resultados que vemos são similares aos de estudiosos de países mais ricos e prósperos que o Brasil. Tanto aqui quanto lá, há nos relatos das pessoas estudadas algo que desponta como sendo fundamental na experiência da felicidade: o que possibilita a vivência da felicidade não é o que fazemos, mas é como fazemos. Melhor dizendo, é a maneira com que nos responsabilizamos, ou não, pelo que ocorre em nossas vidas que faz com que nos sintamos mais ou menos donos de nossa própria história e, por consequência, mais ou menos próximos daquilo que desejamos ser.

Se responsabilizar pela própria história implica em reconhecer as próprias limitações, assim como acena para a possibilidade da descoberta de potencialidades e vontades adormecidas/esquecidas. Portanto, não me parece que a possibilidade da felicidade se encontre acoplada a uma pessoa ou objeto exterior àquele que a busca, que possa ser medida ou calculada em receitas ou cifrões, muito menos que se encerre numa cápsula ou num conta-gotas. Apesar de haver substâncias químicas envolvidas na experiência da felicidade – como há em toda experiência que envolva nossos sentidos – penso que não basta manipular quimicamente o cérebro para ser feliz, por que felicidade não é apenas bem-estar, não é apenas alívio para depressão ou mau humor.

FORMULA DA FELICIDADE

Em 2005 os pesquisadores britânicos Carol Rothwell e Pete Cohen anunciaram que haviam descoberto a fórmula da felicidade. Eles chegaram a essa fórmula entrevistando milhares de pessoas, às quais perguntavam o que as deixava feliz. Com isso, segundo eles, identificaram algumas condições nas quais homens e mulheres se sentem felizes. De acordo com os pesquisadores as mulheres tenderiam a se sentir mais felizes com o clima quente, convivendo com a família e perdendo peso. Os homens, por sua vez, encontrariam a felicidade no romance, no sexo, na vitória de seus times e em hobbies. A partir desses resultados os pesquisadores chegaram à fórmula da felicidade, que seria:

Felicidade = P = (5xE) = (3xH).

Onde “P” são as características de personalidade, por exemplo, otimismo.

“E” significa as condições existenciais, tais como saúde, estabilidade financeira e vida social.

“H”, por fim, corresponde a autoestima, ambições e senso de humor.

A tal fórmula não “vingou” como uma das contribuições mais memoráveis no estudo da psicologia da felicidade, e por que não? Porque as condições identificadas pelos pesquisadores britânicos como geradoras de felicidade dizem muito mais respeito à alegria do que à felicidade.

E alegria e felicidade não são a mesma coisa? De forma alguma! Se você está com muita fome, esse estado fisiológico desagradável desencadeia respostas físicas, cognitivas e emocionais negativas como irritação, desatenção, hipoglicemia, dor de cabeça, etc. Quando você come, suprindo a necessidade de alimentar-se, seu corpo vivencia uma condição de satisfação fisiológica. Essa condição leva seu cérebro a liberar endorfinas, que são hormônios associados à sensação de relaxamento e  de prazer. Sentindo-se mais relaxado e satisfeito você tende a tornar-se mais calmo, mais atencioso, mais simpático, mais alegre! Dificilmente, contudo, a mera satisfação de uma necessidade física, emocional e/ou intelectual produzirá felicidade.

Saciar a fome, abrigar-se do frio ou do calor excessivos, aliviar uma dor, comprar uma casa, emagrecer, fazer sexo, passar numa prova, conseguir um novo emprego, arranjar um namorado, etc., satisfazem necessidades físicas, cognitivas e emocionais. Tudo isso gera emoções e sensações como alegria, satisfação e contentamento, que juntas podem significar felicidade, mas isoladamente não. É importante entender que todos esses momentos descritos acima levam a um estado de “estar feliz” e não de “ser feliz”.

Toda vida humana será marcada por momentos desagradáveis, tristes, etc. Todo mundo, em algum momento da vida, terminará um relacionamento, será demitido, criticado, rejeitado, perderá alguém que ama, adoecerá… Se para ser feliz não pudéssemos jamais vivenciar uma perda ou sofrimento ninguém seria feliz. Nunca!

Sendo assim, o que os estudos sobre felicidade apontam é que para definirmos a felicidade é fundamental estabelecermos uma diferença entre estar feliz e ser feliz. Estar feliz vincula-se à alegria, que é a sensação momentânea de prazer e bem-estar. Normalmente, esse estar feliz implica na fruição de um evento específico, uma experiência singular num determinado espaço-tempo, por meio da qual conseguimos satisfazer algum desejo, seja comprar um carro, casar, comer a comida predileta ou encontrar um amigo que há muito não vemos. Ser feliz, no entanto, implica capacidade para lidar com os altos e baixos da vida, sem que isso impossibilite a sensação de que a vida vale à pena. Ou seja, ser feliz não significa não ficar triste, não ter problemas, etc., mas define-se por uma abordagem positiva da vida, por uma habilidade em concentrar forças para valorizar aquilo que é bom e superar aquilo que é ruim. Dessa forma, uma pessoa doente pode ser tão feliz quanto uma saudável, uma medíocre pode ser tão feliz quanto uma brilhante.

O ótimo desempenho do corpo ou da mente não são requisitos necessários para a felicidade. Se há uma fórmula para a felicidade, então, esta seria o equilíbrio emocional. Não se deve entender equilíbrio emocional como um estado inalterável de emoções, mas como a capacidade de lidar com a variação dos estados afetivos. Quando conseguimos fazer isso temos mais chances de vivenciar a felicidade, mesmo quando as condições físicas, cognitivas e emocionais nas quais nos encontramos não estão ou não são excelentes.


Renan Lenzi Silva
Jornalista, Gestor Público pela UNICESUMAR, Concluinte de Matemática pela UFSJ e graduando em Engenharia Civil pelo UNIS