Em pauta é... A necessidade de valorizar o professor


Muitos pais sabem que os filhos não contam com um ensino de nível no colégio, mas não têm alternativa. Tanto os pais quanto os políticos chegaram à mesma conclusão: as escolas públicas e os professores do país precisam de ajuda.

É até possível que muitos alunos brasileiros tenham sido bons alunos no colégio, depois se formam e recebem um diploma, mas isso não significa que tenham sido bem preparados para o mercado de trabalho. No Brasil, mais de 60% dos alunos do 5º ano (antiga 4ª série) não conseguem interpretar textos simples nem fazer cálculos matemáticos. Sessenta por cento dos estudantes do 9º ano (antiga 8ª série) não conseguem interpretar textos dissertativos. É preocupante o fato de que muitos brasileiros concluam o Ensino Médio sem ter dominado as habilidades básicas de leitura, escrita e aritmética.

É muito fácil apontar os culpados por tal situação. Antigamente, os pais impunham respeito; hoje em dia, há tantas famílias fragmentadas que muitos jovens crescem sem figuras de autoridade. Não há quem lhes ensine disciplina e responsabilidade. Outra grande culpada é a televisão, pois quem passa muito tempo assistindo a programas de TV geralmente não tem interesse ou tempo suficiente para estudar. Outro problema se encontra na escassez de recursos e de bibliotecas nas escolas. E, por fim, há o grave problema da violência que ocorre dentro delas.

Mas, nos últimos tempos, o foco tem recaído nos professores. Nos debates presidenciais, Dilma Rousseff, atual chefe da nação, afirmou, com propriedade, que um dos grandes problemas da educação no Brasil reside no despreparo e a falta de recursos de nossos professores.

Antigamente, eles eram admirados por sua dedicação. Hoje, são considerados mártires, que trabalham muito e ganham pouco. Há aqueles que os acusam de desmotivação e despreparo.

Alegar que muitos professores são despreparados não é uma inverdade. De fato, muitos deles são leigos que não dominam a matéria que ensinam. Segundo o MEC, quase 11% dos professores de Ensino Médio completaram apenas o Ensino Médio. E 1% dos professores de Ensino Fundamental nem completou o Ensino Fundamental.

É claro que entre os milhões de professores no Brasil, há muitos que são extremamente bem preparados e dedicados. Apesar de inúmeros problemas e baixos salários, dedicam-se ao máximo à profissão e ensinam seus alunos com amor, carinho, disciplina e energia. Inegavelmente, nossa sociedade deve muito aos mestres. Os 2.6 milhões de professores que lecionam na Educação Básica e Superior são responsáveis pela educação de 57,7 milhões de brasileiros (INEP/MEC 2003).

Muitos decidiram seguir o magistério, apesar dos baixos salários, porque querem ajudar crianças e jovens. Professores da rede pública que ensinam nas séries de 1ª a 4ª, recebem, em média, R$462 por mês. Aqueles que ensinam nas séries de 5ª a 8ª recebem um salário médio de R$ 600. Um professor de Ensino Médio ganha, em média, R$ 866.

A remuneração de um professor de Ensino Médio equivale a praticamente a metade do salário de um policial civil e a apenas um quarto do que recebe um delegado de polícia no Brasil.

Os salários pagos aos professores também dependem da região do país na qual ensinam. As diferenças salariais são marcantes. Os professores das regiões Norte e Nordeste são, em geral, os mais mal remunerados. Um professor da Região Sudeste ganha, em média, o dobro do que recebe outro, da Região Nordeste. Um professor de Ensino Fundamental (séries 5ª a 8ª) que leciona na Região Sudeste recebe, em média, um salário de R$ 793; mas se esse mesmo professor ensinasse na Região Nordeste, seu salário seria de aproximadamente R$ 373. Ainda segundo o estudo, o salário dos professores é o índice de maior peso no cálculo do custo do aluno.

Uma mudança positiva é que muitos professores estão sendo mais bem treinados. Uma mudança negativa é que todo esse treinamento não está produzindo os resultados desejados. De acordo com dados da Saeb, (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica) mais de 80% dos professores da Educação Básica participaram de formação continuada nos últimos dois anos. Esse número se aplica a professores de todas as regiões do Brasil. Entretanto, isso não significa que os alunos estejam sendo mais bem preparados por seus mestres. Uma pesquisa que analisou os resultados obtidos por alunos nas provas de Língua Portuguesa e Matemática do Saeb demonstrou que o curso de formação continuada dos professores pouco impacto teve sobre o desempenho acadêmico de seus alunos. Em outras palavras, o curso não tornou o professor mais eficaz na sala de aula. Segundo o estudo, isso indica “a necessidade de ampliar as pesquisas nessa área e, depois, reorganizar esses cursos, redefinindo seus objetivos e métodos”.

Muitos professores culpam a sociedade pela falta de preparo dos estudantes. Alegam que pouco se faz para apoiá-los, mas, ao mesmo tempo, deles muito se cobra.  Espera-se que os professores consertem os males da sociedade: o preconceito racial, as diferenças econômicas e a ausência ou indiferença dos pais em relação aos filhos. De fato, a cada dia, há mais mães que trabalham e, consequentemente, têm menos tempo para se ocupar deles. Inúmeros pais delegam a responsabilidade da educação aos professores. Muitos alunos, portanto, criam laços fortes e pessoais com eles. Não é raro um jovem revelar mais a respeito de sua vida para o professor do que para os pais.

Os professores afirmam que o motivo pelo qual muitos deles não conseguem preparar adequadamente os alunos para a faculdade e o mercado de trabalho é que, hoje, precisam desempenhar tantas funções que não lhe sobra tempo para ensinar com eficácia. Hoje são obrigados a fazer as vezes de pai, mãe, padre, pastor, rabino,  policial,  psicólogo e  conselheiro sentimental dos alunos. E, é claro, além disso, cabe-lhes ensiná-los a ler, escrever, resolver problemas matemáticos, fazê-los assimilar História, compreender as Ciências, aprender uma ou mais línguas estrangeiras, etc. Nos Estados Unidos, há um novo termo pedagógico para descrever tal situação: “a exaustão do professor”.  Essa condição psicológica é produzida por estresse e pode resultar em desmotivação, úlceras, enxaquecas, tonturas, gripes frequentes e até em tendências suicidas. O fenômeno da “exaustão do professor” se aplica a todos os docentes – da rede pública e privada, sejam eles de pequenas ou grandes cidades.

Segundo o Dr. Herbert Pardes, diretor do Instituto Nacional de Saúde Mental, nos Estados Unidos, a maioria dos professores acredita que os problemas administrativos de uma escola e até mesmo a violência física sofrida por eles são psicologicamente menos nocivos do que a frustração advinda da incapacidade de ensinar de forma construtiva e recompensadora. Isto é, os professores sentem que a situação atual de educação nas salas de aulas está fora de controle. Alguns motivos disso são:

  •  - Problemas de infraestrutura. Um problema que a educação brasileira continua a enfrentar é a estrutura física precária das escolas. Além disso, os alunos passam muito pouco tempo em sala de aula.
  •  - 45% dos profissionais de educação trabalham em escolas públicas que não têm biblioteca; 74% trabalham em estabelecimentos onde não há laboratório de informática; e cerca de 80%, em escolas que não contam com um laboratório de Ciências (MEC/INEP 2003).
  •  - No Ensino Médio, há ainda outro problema: alunos demais por sala de aula. A média é 37 alunos por sala de aula; mais de 20% das turmas são compostas por mais de 40 alunos. Com turmas tão numerosas, é difícil para o professor manter a ordem. Mas o maior problema de haver uma sala de aula com tantos alunos é que se torna praticamente impossível para o professor dar a atenção necessária para cada um deles.


Renan Lenzi Silva
Jornalista, Gestor Público pela UNICESUMAR, Concluinte de Matemática pela UFSJ e graduando em Engenharia Civil pelo UNIS