Coluna - Ka entre Nós, por Lucrécia Santos - 02/12/2014

Como sobrevivemos?

Olhando para trás, é duro crer que estejamos vivos até hoje. Nós viajávamos em carros sem cintos de segurança ou air bag. Não tivemos nenhuma tampa à prova de crianças em vidros de remédios, portas, ou armários e andávamos de bicicleta sem capacete, sem contar que pedíamos carona.

Bebíamos água direto da mangueira e nos riachos, e não da garrafa, em copos descartáveis. Nós gastamos horas construindo nossos carrinhos de rolimã para descer ladeira abaixo, e só então descobríamos que tínhamos esquecido do freio. Depois de colidir com algumas árvores, aprendemos a resolver o problema.

Saíamos de casa pela manhã e brincávamos o dia inteiro, só voltando quando se acendiam as luzes da rua. Ninguém podia nos localizar.
Não havia telefone celular.

Nós quebramos ossos e dentes, e não havia nenhuma lei para punir os culpados. Eram acidentes. Ninguém para culpar e processar, só a nós mesmos.

Nós tivemos brigas e esmurramos uns aos outros e aprendemos a superar isto.

A amizade continuava a mesma…

Nós comemos doces e bebemos refrigerantes, mas não éramos obesos. Estávamos sempre ao ar livre, correndo e brincando. Compartilhamos garrafas de refrigerante, e ninguém morreu por causa disso. Não tivemos Playstation, Nintendo 64, vídeo games, 99 canais a cabo, filmes em vídeo, som surround, celular, computadores ou Internet.

Nós tivemos amigos. Nós saíamos, e os encontrávamos. Íamos de bicicleta ou caminhávamos até a casa deles e batíamos à porta. Imagine tal coisa! Sem pedir permissão aos pais… Por nós mesmos! Lá fora, no mundo cruel! Sem nenhum responsável! Como fizemos isso?

Nós corremos, brincamos e inventamos jogos com varas e bolas improvisadas, apanhamos do chão e comemos frutas caídas e, embora nos tenham dito que aconteceria, nunca passamos mal, tivemos dor-de-barriga para sempre, ou uma contaminação fatal!

Nos jogos da escola, nem todo o mundo fazia parte do time. Os que não fizeram, tiveram que aprender a lidar com a frustração.…

Alguns estudantes não eram tão inteligentes quanto os outros. Eles repetiam o ano. Que horror! Não inventavam testes extras nem aprovação automática. Éramos responsáveis por nossas ações e arcávamos com as consequências. Não havia ninguém que pudesse resolver por nós. A idéia de um pai nos protegendo se desrespeitássemos alguma lei, era inadmissível! Nossos pais protegiam mais as leis do que a nós! Imagine!

Nossa geração produziu alguns dos melhores enfrentadores de risco, negociadores de soluções, criadores e inventores! Os últimos 40 anos foram uma explosão descomunal de inovações e novas idéias. Foi o resplendor da criatividade humana… Foi à verdadeira Renascença da humanidade! Tivemos liberdade, fracasso, sucesso, responsabilidade, histórias pra contar e aprendemos a lidar com tudo isso… A VIVER, enfim!

Se você é um deles. Parabéns!
Sorte dos que tiveram oportunidade de crescer como crianças…